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sábado, 23 de abril de 2016

As duas maiores cidades da América Latina enfrentam o desafio de gerenciar, em uma década, um sistema de água sustentável.
Os 31% da água potável no mundo estão na América Latina, a região com água mais limpa por habitante. No entanto, a gestão do precioso líquido nas megacidades, ou cidades com população superior a 10 milhões, tem o prazo de uma década antes de entrar em crise. Por que na América, um continente com mais fontes de água doce do que a Europa, há muitos problemas de abastecimento e saneamento? Dois dos documentaristas de projetos H2OMX da Cidade do México (21 milhões de habitantes) e Vivo Volume de São Paulo (19 milhões) discutem uma resposta a esta crise.
Dia 22 de março foi o dia mundial da água, uma comemoração para destacar o papel essencial da água e promover melhorias para o sofrimento de populações pelo mundo com problemas hídricos, conforme foi definido pela ONU em seu site. Na América Latina, 77 milhões de pessoas têm problemas no acesso a esse líquido de acordo com o Conselho Mundial da Água.
Mas nas duas maiores cidades da América Latina o problema não é a falta de água: ambas, São Paulo e Cidade do México, 31% das pessoas já presenciaram a sua vizinhança inundar no ano passado, de acordo com a pesquisa Megacidades e infra-estrutura na América Latina realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em cinco cidades da América Latina durante 2013.
A população urbana da região representa mais de 82% e para 2050 é esperado 90%, e uma das questões pendentes para as classes econômicas mais baixas dessas megacidades é o acesso universal aos serviços básicos de água, saneamento e eletricidade, de acordo com uma das conclusões do documento do BID.
México, uma crise administrativa
A água é o personagem principal do documentário H2OMX (2014) diz um de seus diretores, Jose Cohen, e mostra os 60 minutos do líquido que flui através da tela durante o filme. O documentarista diz que uma de suas intenções em fazer o filme foi para descobrir o que acontece a cada um que abre e fecha a torneira, relatar o ciclo da água na capital mexicana.
"A questão dos problemas de água no Vale do México é um problema de gestão: o Vale do México geograficamente é um lago (Texcoco), antes da conquista era um lago e com a chegada dos espanhóis deixa de ser uma cidade água para se tornar uma cidade seca ", diz Cohen.
Os problemas de água na capital mexicana são a falta de sistemas sustentáveis de captação de chuva e tratamento de esgoto, porque de acordo com o documentário, o Vale do México tem a água da chuva o suficiente para ser abastecido os 365 dias por ano.
Mas na metrópole apenas 7% da água é tratada. De acordo com o levantamento do BID, 16% dos cidadãos da Cidade do México tem visto seu esgoto correndo pelas ruas nos últimos meses, uma porcentagem ligeiramente superior à média da América Latina é de 10%.
"Visualmente o que me impressionou foram essas montanhas de espuma nesta barragem, ver que todos os resíduos que esses caminhões recolhem são jogados ao ar livre e é filtrada para o solo, as águas residuais estão irrigando produtos agrícolas que consumimos com metais pesados" diz Joseph Cohen sobre sua experiência de filmar H2OMX.
60% da água consumida na cidade é extraída do aquífero e os restantes 40% vem de conurbados do Vale do Mexico, como Michoacán e do Estado do México. Cohen diz que uma gestão adequada dos recursos poderia alterar estas percentagens, porque só em vazamento do sistema de tubulação da cidade é perdido cerca de 40% do líquido que é distribuído.
A Cidade do México não tem escassez de água, mas há a ameaça de se chegar a uma crise hídrica dentro de 10 anos "e esse tempo é muito curto", diz o documentarista. A esta situação se adiciona uma outra relacionada com a sobre-exploração dos aquíferos da cidade: a cidade afundou 10 metros em um século.
Um sistema adequado de tubulações, aproveitamento de águas pluviais e saneamento dos resíduos, Cohen diz que o importante para enfrentar a crise é priorizar: "O México está convocando os melhores arquitetos do mundo para fazer um grande aeroporto, chame o melhor e fazer um plano sustentável", diz o jornalista.
São Paulo, em negação
Chove em São Paulo, e para muitos, isso significa que não há problemas no abastecimento de água da capital. No entanto, Caio Silva Ferraz, diretor da websérie Volume Vivo, que procura explicar a crise hídrica na maior cidade do Brasil, é claro: os problemas estão apenas começando. "Por ser uma cidade de quase 20 milhões de pessoas, São Paulo estará sempre no limite", disse Ferraz. "Eu tenho certeza que vou fazer muitos mais filmes sobre o assunto e as pessoas têm que se conscientizar cada vez mais sobre isso."
O primeiro episódio do Volume Vivo é chamado de A negação da crise, e leva os espectadores a 2014. Naquele ano, a Cantareira, responsável pelo abastecimento de água na grande São Paulo e outras 62 cidades do sistema estatal atingiu volumes baixos históricos. A pior crise de água nos últimos 84 anos foi começando, e as autoridades negaram qualquer dificuldade. "A negação da crise não era uma questão que eu tinha pensado inicialmente, mas era tão óbvio que eu senti que deveria gravá-lo como um momento histórico", disse Ferraz.
Era uma situação sem precedentes: o Brasil é o país com mais água doce do mundo, 12% do total, de acordo com a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Portanto, o gerenciamento deste recurso no país sempre foi estruturado a partir de uma posição de abundância, o que colocou em risco a sua existência e acessibilidade, especialmente para os mais pobres. "São Paulo tem um problema histórico de poluição da água. Esta é uma cidade que cresceu muito rápido e usou sua água para a energia e jogar lixo ", observa Ferraz, que também diz que quase todos os rios de São Paulo estão contaminados. Segundo a pesquisa do BID, 14% dos paulistas têm visto esgoto correndo pelas ruas da cidade nos últimos meses.
Para o diretor do Volume Vivo, a crise da água em São Paulo é um problema de gestão, porque os governos municipais têm se dedicado a implementar medidas corretivas, em vez de atacar a raiz do problema. "A falta de água gera uma desordem política e qual é a solução? Traga mais água em vez de tentar resolver os problemas históricos ", disse Ferraz.
O quarto e último capítulo da série web será sobre a evolução das privatizações de água, que está presente desde os anos 80. Para Ferraz, é a maneira ideal de completar o seu estudo da crise, já que mostra como isso gera conflitos porque a água é um bem público, necessário para a vida de todas as pessoas. "Mas muitas vezes as decisões tomadas pelos governos não levam em conta o bem comum, pelo menos aqui na América Latina", lamenta o documentarista.
*Publicado originalmente em EL PAIS
**tradução livre

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