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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Escassez de água pode limitar crescimento econômico nas próximas décadas, diz ONU

·         Publicado em 22/03/2016
América Latina está particularmente vulnerável, uma vez que a maior parte de suas economias é dependente de matérias-primas; setores como mineração e agricultura são intensivos no uso de água.

Relatório da UNESCO apontou efeitos da escassez e do mau uso dos recursos hídricos para as economias dos países. Foto: EBC.
Relatório da UNESCO apontou efeitos da escassez e do mau uso dos recursos hídricos para as economias dos países. Foto: EBC.
Três em cada quatro empregos do mundo são forte ou moderadamente dependentes de água, segundo estimativa de relatório das Nações Unidas publicado nesta terça-feira (22), na ocasião do Dia Mundial da Água.
Consequentemente, a escassez e os problemas de acesso à água e ao saneamento podem limitar o crescimento econômico e a criação de empregos no mundo nas próximas décadas, de acordo com o documento, que citou a falta de investimentos em infraestrutura e os altos índices de vazamentos nos sistemas hídricos das cidades globais, inclusive de países desenvolvidos.
Segundo o “Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, Água e Emprego”, metade dos trabalhadores do mundo – 1,5 bilhão de pessoas – está empregada em oito indústrias dependentes de recursos hídricos e naturais: agricultura, silvicultura, pesca, energia, manufatura intensiva de recursos, reciclagem, construção e transporte.
“A água e o emprego estão indissociavelmente ligados em vários níveis, quer seja na perspectiva econômica, na ambiental ou na social”, disse a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova.
A América Latina e o Caribe estão particularmente dependentes da água na criação de empregos, porque a maior parte de suas economias é ligada à exploração de recursos naturais, como mineração e agricultura (incluindo biocombustíveis). Em países como Brasil, Argentina, Chile, México e Peru, a irrigação também é responsável por uma parte importante da produção agrícola, particularmente para exportação.
“Apesar de a região (América Latina e Caribe) ter cerca de um terço da provisão de água no mundo, o uso intenso desse recurso em suas economias e sua dependência dos recursos naturais e dos preços internacionais das matérias-primas impõem importantes desafios para o crescimento econômico e a criação de empregos”, disse o relatório.
“As secas são frequentes na região. Secas severas podem levar a um aumento do desemprego, particularmente entre a população rural”, completou.
Segundo o relatório, os efeitos da escassez de água já puderam ser verificados em casos como o da cidade de São Paulo, cuja economia foi prejudicada em 2014 e 2015 pelas frequentes enchentes e secas severas.

Pressão crescente

O relatório citou o problema da crescente pressão sobre os recursos de água potável no mundo, exacerbado pelos efeitos das mudanças climáticas.
Enquanto a taxa de extração de águas subterrâneas cresce a 1% ao ano no mundo desde 1980, a população global deverá crescer 33% (de 7 bilhões para 9 bilhões de pessoas) entre 2011 e 2050, junto com um aumento de 60% da demanda por alimentos.
A expectativa é que, para cada grau de aquecimento global, aproximadamente 7% da população mundial enfrente uma diminuição de quase 20% dos recursos hídricos renováveis, segundo avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC).
O relatório da ONU apontou também forte ineficiência da infraestrutura de gestão de recursos hídricos dos países. A estimativa é que, globalmente, 30% da extração de água seja perdida em vazamentos. Em Londres, a taxa é de 25%, e na Noruega, de 32%.
“Essa projeção de escassez de água exigirá recursos hídricos não convencionais, como aproveitamento de águas pluviais, águas residuais recicladas e drenagem urbana”, disse o relatório. “O uso desses recursos hídricos alternativos criará novos empregos no desenvolvimento de pesquisas e tecnologias e na implementação de seus resultados.”
A expectativa é que outra fonte crescente de empregos sejam as energias renováveis. Segundo o relatório, em 2014, em torno de 7,7 milhões de pessoas no mundo foram empregadas (direta ou indiretamente) pelo setor, sendo que o segmento de energia solar foi o que mais empregou, com 2,5 milhões, seguido pelos biocombustíveis, com 1,8 milhão.
“A crescente criação de empregos foi notada em todos os tipos de energias renováveis”, disse o relatório, afirmando que os países que mais empregaram nesse setor foram China e Brasil, seguidos por Estados Unidos, Índia, Alemanha, Indonésia, Japão, França, Bangladesh e Colômbia.
A reciclagem também é citada como uma nova fonte de ocupação e uma contribuição importante para reduzir a demanda global por produtos manufaturados. Contudo, o documento lembrou que, em alguns países, os empregos relacionados à reciclagem são insalubres e perigosos.
Segundo o documento, o Brasil emprega cerca de 500 mil pessoas no setor de reciclagem, enquanto nos EUA esse número é de 1,1 a 1,3 milhão, e na China, de 10 milhões.

Ban Ki-moon: tema não recebe a atenção que merece

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, observou que, apesar da sua importância fundamental, a água como um setor geralmente não recebe a atenção que merece.
“A água é fundamental para a sobrevivência humana, para o meio ambiente e para a economia”, destacou Ban, lembrando que a data é uma oportunidade para que todos possam aprender mais sobre questões relacionadas ao tema, serem inspirados a transmitir o conhecimento a outros e tomarem medidas que façam a diferença.
Ban Ki-moon destacou em sua mensagem que as pessoas com menos acesso à água e ao saneamento muitas vezes não têm acesso a cuidados de saúde e empregos estáveis, perpetuando o ciclo da pobreza.
“Estou especialmente preocupado com as lacunas entre as cidades e o campo, homens e mulheres, e ricos e pobres. O fornecimento básico de serviços adequados de água, saneamento e higiene em casa, na escola e no local de trabalho permite uma economia robusta, contribuindo para uma população saudável e produtiva, incluindo os trabalhadores”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
O diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e atual presidente da UN-Water (ONU-Água, em português), Guy Ryder, comentou o relatório. “Essa análise destaca o fato de que a água é fonte de trabalho – ela exige dos trabalhadores a gestão hídrica segura e, ao mesmo tempo, ela pode gerar emprego e melhorar suas condições”, disse.


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