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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Objetos que iriam para o lixo ganham vida em novas mãos

Pessoas se dedicam a encontrar e “salvar” peças descartadas para reutilizar sem destruir a forma


Uma pintura emoldurada é jogada em uma lixeira de rua do bairro Serra, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Além da poeira, ela traz no verso uma dedicatória, a única pista sobre a história daquela obra. O texto, escrito em português e francês em 1983, parabeniza uma certa Luiza por seu aniversário de 30 anos. Por que aquela mulher resolveu apagar essa lembrança de sua vida? Uma desilusão, uma briga, a morte? Vários motivos começam a brotar na imaginação, sem respostas. Seja qual for, o fato é que ela quis dar fim ao objeto. Mas, por meio do arquiteto e designer Daniel Corrêa, 37, o destino do quadro foi outro.


O quadro foi levado para o Coletivo Au, loja de design de móveis em Belo Horizonte especializada em garimpar e dar nova vida a peças que alguém não quis mais e que, na maioria das vezes, virariam lixo. Só foi preciso tirar o pó da moldura e colocá-la à venda. Mesmo sem autoria renomada (identificada apenas por “Souza”), a obra tinha seu valor. A dedicatória carregada de sentimento e a pintura de faces humanas que remetiam ao cubismo despertaram o olhar de mais gente interessada naquilo que tem história. Em menos de uma semana, o objeto que seria destruído foi vendido por R$ 80.



Por coincidência, um amigo de um amigo de Daniel visitou a loja antes da venda e se surpreendeu ao ver o quadro de sua mãe ali. Sem fazer revelações, disse somente que Luiza teve seus motivos para se ver livre da pintura, o que só alimentou ainda mais a curiosidade e a imaginação de quem ficou sabendo a história.



Upcycling. O hábito de garimpar peças e móveis – antigos ou novos, mas que tenham uma identidade, um valor afetivo – à beira da destruição e reaproveitá-los reúne pessoas de diferentes áreas. Uma das vertentes dessa prática é chamada de “upcycling”, que significa dar um novo ciclo de vida para materiais que seriam descartados. O conceito é diferente da reciclagem, que gera resíduos e gasta energia em sua produção. O upcycling resgata coisas antigas e dá novo uso para elas, mas sem destruir sua forma.



O Coletivo Au – nome inspirado no símbolo do ouro na tabela periódica, o que remete ao garimpo – trabalha com esse conceito há três meses em Belo Horizonte. Quatro arquitetos se dedicam a fazer uma releitura de objetos que iriam para desuso e falam com entusiasmo do que fazem. “O principal do upcycling é trazer o objeto de volta para o ciclo de vida, seja com mesma função ou nova função”, explica Henrique Pirani, 36.

Móveis restaurados preenchem cômodos vazios
A sala de TV virou escritório compartilhado. Os quartos se tornaram salas de reunião e de oficinas. Assim, a Casa Imaginária transformou uma antiga residência de família, que estava fechada, em um espaço de incentivo a iniciativas locais no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul da capital.


Foi da garagem cheia de móveis e objetos sem uso que saiu também a mobília do lugar. No fim de setembro e início deste mês, as três idealizadoras do espaço realizaram a oficina “Garimpo e reaproveitamento de móveis”, que reuniu dez pessoas dedicadas a recuperar os materiais.



“Resolvemos olhar para cadeiras que poderiam ser lixo e compor uma sala de reunião. Uma porta que compramos com medida errada virou o tampo de uma mesa”, diz a relações públicas Bruna Viana, 26.



A casa era dos avós da produtora de eventos Bruna Pardini, 34, que diz ter uma família de acumuladores de objetos. “O legal é ter móveis que sejam úteis”, conclui.

Disponível em: http://www.otempo.com.br/cidades/objetos-que-iriam-para-o-lixo-ganham-vida-em-novas-m%C3%A3os-1.1386097

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