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sábado, 1 de outubro de 2016

Exóticos e inconvenientes

Quando plantas e animais são introduzidos em ambientes estranhos, as consequências ambientais e econômicas podem ser terríveis

Píton-burmesa cruza estrada na Flórida, Estados Unidos

Pítons-burmesas foram abandonados por seus donos - e ameaçaram a fauna do parque de Everglades

No fim da tarde, quando as sombras se alongam e o asfalto esfria, as serpentes das Everglades saem para jantar. Com o piloto automático fixado em 40 quilômetros por hora, meu carro parte no encalço delas, em incessante patrulha, indo e voltando pela estrada de duas pistas que atravessa o parque.

Às 8h23 da noite, finalmente avisto uma serpente pequena e roliça, parada na pista. Salto do carro para examinar a criaturinha gorducha e – “Tsss!” – ela joga a cabeça para trás e escancara suas mandíbulas, exibindo uma sinistra flor com pétalas de carne rosada. É uma das venenosas, a trigonocéfalo-d’água (Agkistrodon piscivorus conanti). Corro de volta ao carro. Às 20h28, surge outra serpente, escura e sinuosa, fina demais para ser a criatura que estou procurando. Às 21h03, outra pequena gorducha que merece ser examinada. Não. Provavelmente é uma cascavel-anã (Sistrurus miliarius barbouri).
Depois disso, mais nada. Às 22h, os faróis de um carro surgem em meu espelho retrovisor. Eles se aproximam com velocidade e, quando volto a olhar para a estrada, lá está a minha serpente – enorme, tão grossa quanto uma coxa humana e tão comprida quanto a largura da pista. Estou prestes a passar por cima dela. Enfio o pé no freio e faço sinal com a mão para avisar o motorista que vem atrás. O carro muda de pista e me ultrapassa. No último segundo, ele avista a serpente, entra no acostamento, volta à pista e acelera. O reluzente animal, com seu padrão de losangos cinzentos e cor de bronze, escapa ileso.

Python molurus bivittatus, ou píton-burmesa, não está em nenhuma lista de répteis endêmicos na América do Norte, pois é uma espécie nativa do Sudeste Asiático, como deixa bem claro o seu nome. Na Flórida, porém, quem quiser encontrá-la na natureza só precisa circular pela estrada que atravessa o Parque Nacional de Everglades numa noite de verão. É uma visão bizarra: o espécime iluminado pelos faróis do meu carro é maior do que qualquer outra serpente da América do Norte, ainda que seja pequeno pelos padrões de sua espécie. As pítons podem viver 25 anos e alcançar até 6 metros de comprimento. São grossas como um poste e podem devorar um veado adulto.
Skip Snow, um biólogo que trabalha no parque, já examinou dezenas de pítons-burmesas que apareceram nos Everglades nos últimos anos. “Não há a menor dúvida de que elas se estabeleceram e estão se reproduzindo por aqui”, disse. Se Snow estivesse comigo nessa noite, ele imobilizaria a serpente de 3 metros com um bastão especial a fim de levá-la ao laboratório, matá-la e fazer sua autópsia. Mas Snow está ocupado em algum outro lugar, e esta sua humilde criada está tremendo no assento do carro esporte, lutando contra uma vontade absurda de travar todas as portas. O animal permanece imóvel apenas o suficiente para que eu a observe; em seguida, desliza pesadamente e some entre a vegetação.
De volta ao motel Flamingo Lodge, não consigo me conter e conto ao gerente da noite toda a minha aventura. “Ah, uma píton de 3 metros”, diz ele, arrastando as palavras. “Isso não é nada.”
O resumo da história é: por todo o mundo, em quase todas as regiões e tipos de ecossistema, animais e plantas que evoluíram em determinados hábitats estão agora aparecendo em locais onde não deveriam surgir – e, de modo intencional ou não, os culpados somos nós, que por razões diversas os introduzimos ali. As pítons-burmesas foram parar na Flórida porque negociantes de bichos de estimação as importaram da Ásia, e depois foram jogadas nos Everglades por gente que descobriu que, no fim das contas, não era uma idéia tão boa assim manter serpentes enormes em casa. Como são animais adaptáveis – vivem por muito tempo e comem de tudo –, as pítons sobrevivem com facilidade, encontram seus semelhantes e se multiplicam.
Viajando na direção oposta, espécies ocidentais também acabaram no Oriente. A tartaruga-de-orelhas-vermelhas (Trachemys scripta elegans), nativa da bacia do Mississippi, foi enviada para todo o mundo como animal de estimação e como alimento. Agora ela está se disseminando pela Ásia e pela Europa meridional, devorando sapos, moluscos e até pássaros nativos.
Algumas espécies exóticas são benéficas. Por exemplo: a maioria das plantas cultiváveis e dos animais da América do Norte veio da Europa, da América do Sul e de outras regiões. As ostras e os mariscos originários do Japão são a base do setor de frutos do mar em todo o mundo. Alguns espécimes introduzidos, no entanto, têm um efeito desproporcional sobre os ecossistemas em que são introduzidos. Os ecólogos os batizaram de “espécies invasoras”.
Disponível em: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/exoticos-especies?utm_source=redesabril_viagem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_ngbrasil

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