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quinta-feira, 31 de março de 2016

Rio São Francisco é fonte de vida para ribeirinhos em terras baianas

Bahia é o estado em que o Velho Chico percorre o maior trecho. 
Mesmo castigado, ele é fonte de vida para os ribeirinhos.

José RaimundoMalhada, BA
Dentre todos os estados por onde passa, é na Bahia que o Rio São Francisco percorre o maior trecho. O Globo Rural navegou por quase mil quilômetros do Velho Chico em território baiano e mostrou que, mesmo castigado, ele é fonte de vida para os ribeirinhos.
Quando entra na Bahia, o São Francisco revela no horizonte uma missão: socorrer milhões de nordestinos. Depois de deixar Minas Gerais, ele percorre outros quatro estados. Além da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Gera energia em sete hidrelétricas e alimenta o maior lago artificial da América Latina. Suas águas abastecem 264 cidades só no Nordeste.
Malhada é o primeiro município baiano banhado pelo rio. A seca histórica deixou marcas profundas em uma fazenda que abriga uma RPPN – reserva particular do patrimônio natural. Todo ano, de dezembro a março, aves do pantanal mato-grossense voam para essa região. Na área, que geralmente fica alagada, elas formam o maior ninhal do sertão nordestino. Mas este ano, pela primeira vez, não vieram. Não teve água, nem comida para elas.
O agricultor Ruy Moura, um dos donos da fazenda, não imaginava que um dia fosse ver seu santuário sem uma gota d'água. “É a primeira vez, nunca vi uma época dessa sem água nenhuma. É uma coisa triste.”
Primeiro afluente do São Francisco no Nordeste, o Rio Carinhanha desagua perto da ponte Guimarães Rosa e, apesar de contribuir com suas águas, pelo menos nessa parte ainda não alterou muito o volume do Velho Chico.
No começo do Médio São Francisco, não faz  muito tempo, as pessoas atravessavam o rio com água abaixo do joelho. Depois de duas semanas de chuva, o rio tem menos de um metro de profundidade.
O São Francisco passa também por Bom Jesus da Lapa, um centro de peregrinação do Nordeste. Todo ano, 300 mil romeiros procuram este santuário encravado no Morro do Calcário.
Em Correntina, no cerrado baiano, estão nascentes que alimentam riachos e rios da bacia do Velho Chico. As nascentes que brotam nesta região estão ameaçadas por grileiros que insistem em derrubar a vegetação para criar gado e aumentar plantações.
Uma aflição para os nativos que vivem nesta área. No começo de 2016, eles se reuniram para salvar um córrego. Leobino Pereira da Silva e seus vizinhos construíram uma cerca e com isso evitaram que os tratores conseguissem avançar.
Uma das nascentes vem do aquífero Urucuia. Aquífero é um lençol de água que fica no subterrâneo com enorme capacidade de armazenagem. O Urucuia é um dos grandes alimentadores da bacia do São Francisco. Tem 120 mil quilômetros quadrados e se espalha por seis estados. Quase 80% da área está encravada no oeste da Bahia.
O Rio Corrente é um dos grandes afluentes do Velho Chico. Ele está preservado na maior parte de sua extensão e também é rico em belezas naturais. O Corrente corta duas cidades: São Felix e Santa Maria da Vitória – uma de frente para outra. Em janeiro ele inundou ruas, praças e deixou famílias desabrigadas. Desde 1989, não se via enchente como esta. O aguaceiro do Rio Corrente rapidamente provocou estragos à beira do São Francisco.
O Globo Rural encontrou João, que com quase um século de vida já viu de tudo no São Francisco. No ano passado, por exemplo, o rio chegou a secar completamente em alguns trechos da região de Ibotirama. Tinha até corrida de cavalo no areião do leito e as balsas encalhavam a todo momento. Hoje, a situação melhorou: as embarcações já voltaram a navegar.
Cento e vinte quilômetros adiante está a cidade de Barra. Nela, o Velho Chico recebe as águas de outro afluente importante: o Rio Grande, que chega na foz exibindo águas turvas. Barra é a cidade onde vive Dom Luiz Cappio. O bispo, que há nove anos fez até greve de fome para protestar contra as agressões ao rio, diz que não se ilude mais com as enchentes. “Essa água é de enxurrada, das chuvas. É um benefício, mas não cura o rio das suas doenças, que são causadas por um abuso do rio, sem a preocupação de revitalizá-lo.”

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